O relato a seguir é uma página de um diário sem nome ou identificação. Não reconheço o fato como sendo verdade ou inverdade e qualquer semelhança com a realidade é mero acaso.
Acordo com um soco em meu braço esquerdo. Meu marido deve ter tido outro pesadelo. Levanto-me e dou uns passos ainda com os olhos entreabertos até o banheiro. Lavo meu rosto e encaro a face no espelho: seu dia será difícil. Na cozinha um adolescente engole cereal com leite.
- Bom dia mãe.
- Bom dia.
Meu café está amargo demais para encarar, largo a xícara na pia e vou me arrumar. É difícil escolher, minhas roupas não me agradam mais, assim como meus sapatos, minhas bolsas, meus óculos ... No fim pego qualquer coisa na sorte, não tenho muito tempo.
Entro no carro quando faltavam exatos 13 minutos para o começo do meu expediente. Alguns metros já distante de casa quase atropelo uma menina que atravessava a rua distraidamente. O retrovisor me lembra: eu disse que seria difícil.
Encontro meu chefe no elevador da empresa, que me saúda com uma de suas piadinhas machistas e generalizadas. Me esforço para disfarçar a raiva.
Depois de um dia de trabalho com inúmeros contratempos, um almoço às pressas e uma ida de última hora à farmácia, finalmente estou em casa e o que mais quero agora é um banho gelado. Abro a porta, avanço uns passos, e logo percebo que estou sozinha - ufa.
Às 2:46 meu marido chega, completamente bêbado e quebrando quase tudo por onde passava.
- Já é a quarta vez essa semana. Cria vergonha na cara seu imprestável! Isso é exemplo que se dê pro seu filho?!
- Não começa ô chiliquenta.
Minha paciência se esgota completamente.
- Chiliquenta é o caramba! Você que é um vagabundo, vive às minhas custas! Cansei de sustentar marmanjo!
Ele vem em minha direção com algo na mão, que não consigo distinguir, mas parece uma faca. No móvel à minha esquerda tem uma estátua e não penso duas vezes antes de atingí-lo. Observo-o expirar: de um problema me livrei, mas ainda existem tantos outros ...
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